5 Livros para Ler quando o Frio Começa a Chegar

Antes de mais, vou fazer apenas uma pequena referência à quantidade de tempo que passou desde a última vez que publiquei aqui… Este tem sido um ano bastante caótico, e infelizmente este blog foi o que mais saiu afectado com isso… Mas daqui em diante, prometo que vou tentar publicar com mais frequência!

Finalmente, parece que o frio chegou para ficar. E não era sem tempo! Já não via hora de que começasse a chuva e o nevoeiro de manhã para poder andar bem agasalhada! Adoro os meses de Outono e Inverno. Há algo na brisa gelada de manhã, na queda das folhas douradas e no cheirinho do fumo das chaminés que me deixa um calorzinho acolhedor cá dentro! E que melhor forma de passar estes meses de frio, de enfrentar este tempo de agasalhos e chocolate quente, do que com algumas leituras que condizem com este ambiente acolhedor?

Como já deverão saber, sou louca por Ficção Histórica e literatura Fantástica, por isso digo desde já que as minhas recomendações estarão na sua maioria, de uma forma ou de outra, dentro destes géneros literários. O que é que posso dizer? Esta é a melhor altura do ano para ler este tipo de livros! Intrigas da corte e duelos de magia enquanto estou embrulhada nas minhas mantinhas… Bah! Nem vamos entrar por aí, senão não me calo! Passemos desde já às recomendações.

Outlander, de Diana Gabaldon

20171126_195542Começando desde já com ficção histórica, esta saga de Diana Gabaldon já não deve ser novidade para muitos, sobretudo com a popularidade que a série de televisão baseada nestes livros ganhou nos últimos anos.

O enredo do primeiro livro começa nas Terras Altas da Escócia, cenário pós Segunda Guerra Mundial, e seguimos Claire Randall, enfermeira de guerra, que se encontra com o seu marido Frank numa segunda lua de mel, que mais não passa do que um pretexto para se reencontrarem e quase que reconhecerem após os longos anos da guerra os terem separado. Mas com o seu marido perdidamente interessado no passado de um ancestral seu, que teria passado certo tempo da sua carreira militar nas Terras Altas cerca de duzentos anos antes, Claire acaba por passar algum tempo consigo mesma, em vários passeios por Inverness e pelo campo. É num destes passeios que Claire se depara com um círculo de pedras druidas que a transportam para a Escócia de 1743. Vendo-se envolvida nas intrigas políticas de uma Escócia em guerra, Claire terá que manter a sua identidade de viajante no tempo em segredo, enquanto tenta a todo o custo voltar a 1945. Mas o coração poderá abalar a determinação de Claire, quando se vê dividida entre o amor por dois homens que o tempo separa.

Todo o cenário escocês é escrito de forma muito vívida, e ficamos com uma delícia de imagens campestres e do estilo de vida dos clãs escoceses do século XVIII que, na minha opinião, se adequa lindamente às estações do Outono e Inverno. Há ainda um clash de épocas e mentalidades que achei extremamente interessante de se ler! Tudo isto com uma gama de personagens bastante realistas que nos fazem querer sempre ler só mais uma página!

Estes livros são bastante focados em História, e acabei por aprender imenso sobre a História da Escócia quando li o primeiro livro. Devo também dizer que estes livros têm uma grande componente de romance, o que poderá ser ou não uma coisa boa, dependendo dos vossos gostos. São também livros bastante explícitos, por isso tenham em conta que não serão muito adequados a leitores mais novos.

Devo dizer que esta série é composta – até à data – por oito livros, dos quais apenas li os primeiros três, que gostei imenso. A escrita de Gabaldon cativou-me desde a primeira página e durante uns tempos li estes livros um a seguir ao outro. Segundo o que consegui averiguar, estão publicados em Portugal os primeiros cinco livros da série. Agora, estes  livros são enormes (800-1000 páginas cada um), pelo que é preciso algum investimento de tempo se quiserem aproveitar ao máximo esta história, mas vale muito a pena!

A Rapariga que Roubava Livros, de Markus Zusak

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Fonte da imagem: goodreads.com

Imaginem a morte personificada, caminhando e observando uma Europa no rebentar da Segunda Guerra Mundial. A morte como narrador, com opiniões sobre o mundo e os seres humanos que habitam uma das épocas mais sombrias da História.

Imaginemos agora que a morte toma um certo interesse por uma menina que, mandada  para adopção neste cenário de guerra, perde o seu irmão mais novo na viagem que mudaria a sua vida. Por ocasião do funeral do seu irmão, esta menina, Liesel Meminger, rouba o seu primeiro livro. Com um conjunto de personagens incríveis, desde a própria Liesel, aos seus pais adoptivos, o seu amigo Rudy e as crianças do bairro e Max, um judeu pugilista refugiado, vamos seguindo a vida de Liesel, onde o seu amor pela literatura e pelas histórias que rouba a ajudam a ultrapassar os duros anos do nazismo na Alemanha, com uma narração por parte da morte sempre presente.

Este foi um livro fenomenal, desde o enredo, às personagens e à própria narração. Uma história tão depressa doce, divertida, reconfortante e emotiva, com uma escrita simples mas cativante. Markus Zusak conseguiu criar um conto incrível que nos deixa a pensar na própria condição humana numa época atroz da história da humanidade.

Um livro para todas as idades. Para ler e reler.

Observações, de Jane Harris

20171126_200044Passado na época vitoriana, Bessy Buckley, uma jovem escocesa de 15 anos em busca de uma vida melhor, aceita um trabalho como criada na mansão de Arabella Reid, que a contrata após descobrir que Bessy sabe ler e escrever, mesmo que as suas qualidades como empregada doméstica deixem um pouco a desejar. Quando a patroa lhe pede que mantenha um diário pessoal onde registe não só as  suas tarefas como os seus pensamentos, Bessy não entende o motivo. Ao descobrir que Arabella mantém um caso de estudo baseado em Bessy e nos registos do seu diário, esta envolve-se numa investigação profunda enquanto tenta perceber os motivos da sua patroa, bem como o seu passado.

Observações começa por ser um livro extremamente divertido, com uma personagem principal muitíssimo irónica dentro das suas humildes origens, para rapidamente se tornar num thriller psicológico que deixa o leitor agarrado até à última página.

Para leitores que gostam de mistério, com um toque suspense, fantasmas e um subtil percurso até à loucura. Digam-me lá se há receita melhor para um dia frio, com um cappuccino quente entre as mãos e as gotas de chuva a descer pela janela!

A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón

20171126_195728Continuando com a  onda de mistério e suspense psicológico, A Sombra do Vento lança-nos para Barcelona dos anos 1940/50. Aí seguimos Daniel Sempere, cujo pai – livreiro de profissão – o leva certa manhã a um lugar proibido, onde é guardada uma grande colecção de livros que, de alguma forma, foram banidos, proibidos ou esquecidos. Este lugar chama-se Cemitério dos Livros Esquecidos, e quem lá entra pela primeira vez deverá levar consigo um livro para ler e cuidar.

Daniel traz consigo um livro de título A Sombra do Vento, escrito por um autor que nunca ouvira falar – Julián Carax. Mas quando começa a ver episódios da sua própria vida mimetizarem eventos de A Sombra do Vento, Daniel entra numa busca pelo autor Julián Carax, investigando o seu passado para tentar perceber o que se está a passar consigo próprio.

Li este livro no início deste ano, e apaixonei-me quase imediatamente pela narração. Carlos Ruiz Zafón tem uma voz incrível que dá imenso gosto ler, com uma forma de escrever mistério e suspense extremamente característica (Já tinha lido O Príncipe da Neblina, do mesmo autor, há uns 6 ou 7 anos e ainda assim consegui reconhecer a escrita desde o primeiro parágrafo!). A juntar a uma escrita maravilhosa, temos um enredo cativante, que junta o cenário histórico de Barcelona a um universo literário que é simplesmente uma delícia!

Acabei de ler há pouquíssimo tempo O Jogo do Anjo, do mesmo autor, tendo também por base o universo literário de O Cemitério dos Livros Esquecidos, e nem sei dizer qual dos dois livros gosto mais! São leituras a não perder!

O Nome do Vento, de Patrick Rothfuss 

20171126_200221.jpgEste livro merece o seu próprio post de discussão. Li-o há cerca de 2 anos e tornou-se rapidamente um dos meus livros favoritos, e eu não digo isto de ânimo leve!

Em O Nome do Vento, é-nos contada a história de Kvothe, um feiticeiro de renome que esconde a sua identidade como estalajadeiro numa pequena aldeia até ao dia em que é reconhecido por um cronista que insiste em fazer um registo escrito da sua história de vida. Durante três dias, Kvothe narra a sua vida, desde a sua infância numa trupe de nómadas, aos seus anos de Universidade (onde, entre outras matérias, é estudada magia), e aos restantes anos que o levaram a tornar-se o mais famoso feiticeiro de todos os tempos.

O Nome do Vento é o primeiro livro de uma trilogia, constituindo o primeiro dia da narração da vida de Kvothe, desde a sua infância até aos anos da adolescência. Esta história é transmitida de uma forma tão cativante que me é difícil explicar! Patrick Rothfuss é um autêntico contador de histórias, capaz de envolver os leitores e deixar imagens lindíssimas no imaginário de quem lê. Não me lembro de me sentir a espairecer enquanto lia O Nome do Vento. Estava tão interessada na história de Kvothe que me era extremamente difícil parar de ler. Entusiasmante a cada passagem, um mundo riquíssimo em contos e lendas e, a juntar a tudo isto, um sistema mágico complexo e descrito com um teor científico que (estudando eu própria ciência) apreciei bastante!

Confesso que ainda não li o segundo livro da trilogia (O Medo do Homem Sábio, na versão portuguesa), e isso (para mim) deve-se ao facto de ainda não haver data marcada para o lançamento do terceiro livro que irá completar esta trilogia. Gosto muito de ler séries de uma só vez (se bem que quando se trata de séries grandes tenho que fazer uma pausa pelo meio!), e estava a guardar O Medo do Homem Sábio para uma altura mais próxima do lançamento do terceiro livro. Mas já não sei se aguento tanto tempo! Só de escrever este bocadinho fiquei com uma vontade enorme de reler O Nome do Vento, coisa que vou fazer em breve, sem dúvida! E quando o fizer, podem esperar um post de discussão pormenorizada!

 

E é tudo por parte das minhas recomendações para este tempo mais fresquinho! Falem-me das vossas leituras de Inverno! O que é que gostam de ler nesta altura do ano? Dêem-me as vossas recomendações!

Boas leituras!

Discussão: Orgulho e Preconceito, de Jane Austen

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  • Título: Orgulho e Preconceito
  • Título Original: Pride and Prejudice
  • Autora: Jane Austen
  • Publicação (original): 1813

Lido na versão portuguesa (Civilização Editora).

Normalmente não leio muitos clássicos. Não sei bem porquê, é um mau hábito que criei… Talvez ainda associe “clássicos” às leituras obrigatórias da escola. Não que não gostasse dos livros que tive que ler ou dos seus enredos, muito pelo contrário! Mas suponho que o carácter “obrigatório” acabasse por me desmotivar um pouco na altura (quem me dera que me “obrigassem” a ler este tipo de livros agora!).

Por estes motivos, resolvi-me a quebrar este mau hábito e ler mais obras clássicas este ano. E sinceramente, depois de ler Orgulho e Preconceito, custa-me a pensar num lugar melhor por onde começar esta minha resolução. Não que o soubesse logo que tirei o livro da prateleira, mas assim que li as primeiras frases não o consegui largar mais!

A história em si, acho que é bem conhecida pela maioria das pessoas (se não pelo livro, então pelas adaptações a televisão e cinema).

Em traços largos, seguimos a família Bennet, uma família da pequena burguesia inglesa, sobre a qual recaiu o grande inconveniente de terem sido produzidas 5 filhas da relação de Mr. e Mrs. Bennet e nem um único filho varão. Sem um herdeiro directo à herdade de Longbourn, Mrs. Bennet tem como maior objectivo casar bem todas as suas filhas para assegurar os seus futuros, bem como o dela própria. Não que todas as suas filhas reflectissem as mesmas prioridades. Elizabeth Bennet parece ter ideias diferentes sobre o casamento e a sociedade em si…

Depois de o ricosolteiro Mr. Bingley se mudar para uma propriedade da região, toda a vizinhança entra em alvoroço, quase numa competição interna pela rapariga mais formosa que iria capturar o coração (e o bolso) de Mr. Bingley. Mas este não vem sozinho para a pacata terra de Hertfordshire. Mr. Darcy, grande amigo de Bingley, acompanha-o, mas a sua reputação decresce imenso aos olhos dos da região quando se apercebem do seu infame desgosto pelos bailes da sociedade e conversa fiada.

“- Enganas-te redondamente! Bem sabes como detesto dançar a não ser quando conheço muito bem o par com quem bailo. Ora, numa sala destas, isso seria impossível. As tuas irmãs estão comprometidas e não existe qualquer outra mulher que não represente um castigo para mim aturá-la.”

– Mr. Darcy, para Mr. Bingley

Jane Austen (Orgulho e Preconceito)

E é neste ambiente, com conflitos de Orgulho e rápidos Preconceitos adquiridos uns pelos outros que se desenvolve este divertido enredo.

A intriga envolve o leitor, englobando de forma bastante satírica todos os maiores problemas que afligiam a pequena burguesia inglesa da época. O livro está escrito num tom sarcástico, e toca em pontos da sociedade tão interessantes e ainda relevantes que torna a história muito divertida e apetecível nos tempos de hoje.

Algo que me surpreendeu bastante foi o ritmo a que se desenvolve o livro, que foi bastante mais acelerado do que estava à espera. Tem imensas passagens com diálogos algo extensos, bem como passagens descritivas relevantes e não tão densas que levassem o leitor a dispersar do enredo. Achei que o livro apresentava um bom equilíbrio de leitura.

No seu conjunto, achei Orgulho e Preconceito deliciosamente refrescante e deixou-me muito entusiasmada para ler mais clássicos! Normalmente não marco muitas passagens em livros, mas, meu Deus, este ficou cheio delas!

Este será, muito provavelmente, daqueles livros que vou reler várias vezes.

Discussão: Elantris, de Brandon Sanderson

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  • Título: Elantris
  • Autor: Brandon Sanderson
  • Publicação (original): Maio de 2005

Lido na versão inglesa (Gollancz). 

Ah, Elantris… Como por em palavras a bela aventura que passámos juntos?

Há já algum tempo que queria ler algo de Brandon Sanderson. Na verdade, desde que ouvi falar deste autor que o quero fazer. Amante da literatura Fantástica como sou, não consegui resistir, principalmente depois de todas as boas recomendações por que passei sempre que lia ou ouvia o nome deste autor. O grande dilema foi por onde começar! E, à falta de melhor argumento, decidi por começar pelo seu primeiro livro.

Antes de começar a falar do livro propriamente dito, queria fazer uma pequena ressalva, pois da pesquisa que fiz até agora não encontrei nada que me indicasse que este livro se encontra publicado em Portugal numa versão traduzida (caso esteja enganada, por favor corrijam-me). No entanto, já há traduções de outros livros de Brandon Sanderson para português, nomeadamente a saga Mistborn (em português: Nascida nas Brumas), para o caso de estarem interessados.

Mas falemos de Elantris.

É neste tipo de histórias que eu penso, quando penso em fantasia. Um mundo bem desenvolvido, onde é palpável cada cultura e forma de estar das populações que o habitam. Um sistema mágico complexo, que nos é ensinado e exposto ao longo da história como algo incrível mas também falível. Intriga política. E a juntar a tudo isto ainda temos um conjunto de personagens interessantíssimas e bem desenvolvidas, sob a perspectiva das quais dá imenso gosto ler!

Dez anos antes do início do livro, Elantris tinha sido a cidade mais bela e venerada que o mundo conhecia. Os seus habitantes, Elantrians, cuja pele e longos cabelos reluziam ao sol em tons de prata, eram venerados como deuses pelos reinos vizinhos, dotados de poderes inimagináveis. E ser-se Elantrian não era restrito a apenas alguns. Qualquer pessoa, de qualquer classe, poderia certo dia acordar e verificar que as suas feições tinham mudado, o seu cabelo adquirido os belos tons de branco, e a sua vida completamente mudada. A este evento chamam de Shaod, e quem por ele passasse partiria para ir viver em Elantris e começar uma nova e melhor vida. Até ao infame dia em que Elantris caiu. Em que os Elantrians começaram a estagnar, os seus corpos a apodrecer, como a cidade à sua volta, e os seus poderes a dissipar. O Reod havia caído sobre a cidade dos deuses.

E é neste ponto que conhecemos Elantris, a cidade apodrecida, um local de despejo daqueles que ainda eram felicitados pelo Shaod. De entre estes encontra-se Raoden, príncipe de Arelon, que tinha conhecido Elantris nos seus tempos gloriosos quando ainda era criança. Quando é enviado para o interior das grandes muralhas que circundam a cidade e vê o seu verdadeiro estado não consegue ficar passivo e propõe-se a tomar acções perante o que vê, lutando por sobreviver enquanto o faz.

A princesa Sarene, do reino de Teod, toma a terrível decisão de viajar para Arelon vários dias antes do seu casamento com o príncipe para descobrir que este tinha morrido subitamente. Vinculada a um contrato de casamento que não podia anular, Sarene decide permanecer em Arelon e investigar quanto à estabilidade do reino. E quando descobre da chegada de Hrathen, um gyorn de posição elevada da religião Shu-Dereth que vinga no império Fjordell, teme que este esteja decido a conquistar Arelon por imposição da sua religião, que comportaria consequências desastrosas para Teod e a religião vigente de Shu-Korath.

Em termos de enredo, acho que Elantris está muito bem pensado, tanto a nível de desenvolvimento de intriga como de personagens. É um livro que começa num ritmo um pouco lento e, devido à grande quantidade de informação que é preciso adquirir ao início sobre o mundo para se poder compreender a história, diria que é um pouco difícil mergulhar completamente na leitura, principalmente para os que não estão habituados a ler livros de fantasia. Mas passados os primeiros capítulos a história torna-se muito envolvente e toda a trama tecida à volta das personagens faz com que seja impossível por o livro de lado!

O livro está escrito sob três perspectivas diferentes, de Raoden, Sarene e Hrathen, o que achei espectacular para o tipo de história que é. Podemos ter uma boa visão de todos os principais focos do enredo, bem como perceber as razões e intenções de cada uma das três personagens principais. Foi uma óptima forma de enquadrar o leitor, na minha opinião.

Achei a escrita envolvente e cativante. Bem explicativa nos pontos em que o deveria ser, e notei com agrado que não havia demasiados “info dumps” (ou “despejos de informação”), dada a quantidade de informação acerca do mundo com que o leitor tem que se familiarizar.

Senti que ficaram algumas questões em aberto, sobretudo acerca do sistema mágico, mas que, pela forma como foi exposto, me pareceu propositado. Pelo que me apercebi acho que vão ser publicados mais livros neste universo de Elantris, por isso supus que fosse mesmo esse o objectivo.

Fiquei bem impressionada com a escrita de Sanderson, e acho que Elantris foi um óptimo lugar onde começar para ler obras deste autor. Fiquei muito entusiasmada para ler mais do que este tenha publicado, e vou tentar fazê-lo o mais cedo possível!

Discussão: O Circo dos Sonhos, de Erin Morgenstern

 

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Fonte da imagem: goodreads.com
  • Título: O Circo dos Sonhos
  • Autor: Erin Morgenstern
  • Publicação (original): 2011

Lido na versão portuguesa (Civilização Editora, 1ª edição).

Há já algum tempo que sentia que este livro me perseguia. Há uns anos, para ser exacta. Encontrava uma única cópia sua, em muitas das livrarias onde eu entrava. Lia a contracapa, começava a criar imagens na minha mente e acabava sempre por voltar a colocar o livro na prateleira. Não que não achasse o tema interessante, muito pelo contrário! Mas, por algum motivo, acabava sempre por o deixar ficar no seu lugar.

Acho que acabou por ser uma espécie de jogo, entre mim e O Circo dos Sonhos. O misterioso livro de capa preta e branca surgia sem avisar… Até que um dia nos encontrámos na biblioteca. Era um encontro predestinado, acho eu. E dessa vez trouxe-o comigo… se bem que só por um mês!

Bem, conversas do destino à parte, este foi um livro que me envolveu na sua atmosfera etérea e monocromática desde o momento em que li a primeira página.

O Circo dos Sonhos conta-nos a história de como dois jovens com habilidades mágicas se encontram envolvidos numa competição organizada pelos seus instrutores, tendo o circo como arena para demonstração das suas capacidades e proezas nesta arte. Disto isto, uma pessoa poderia começar a imaginar uma batalha sangrenta de feitiços e maldições a voar desenfreados por baixo de uma tenda circense. Mas não. O Circo dos Sonhos  apresenta-nos uma magia muito mais subtil e encantadora. Uma actuação em que o circo é o palco.

Neste livro, Erin Morgenstern consegue cativar os leitores com a sua escrita e com o ambiente incrível que cria em cada momento. Podemos mesmo sentir que estamos lá, no circo. Sentir o calor da fogueira e  o cheiro a caramelo das pipocas… Toda a história é escrita no presente, o que de início senti que foi um pouco estranho (provavelmente por não estar habituada a ler livros escritos neste tempo) mas ao que rapidamente me habituei. Penso até que ajudou a que me sentisse tão dentro da história como me senti e isso foi, sem dúvida, o que mais me fascinou em todo o livro.

Em termos de enredo tenho algumas coisas a apontar. Gostei da história principal. Senti que estava muito bem construída e foi contada de forma harmoniosa e cativante. Gostei sobretudo do formato “não cronológico” em que foi contado, dado que existem duas linhas temporais para o enredo principal que acabam por se conectar. Assim, penso que esta forma de contar ambas as partes em simultâneo e de modo desfasado funcionou muito bem, no entanto, sinto que este formato ajudou a que alguns pontos da história não ficassem muito bem entendidos, a meu ver. São coisas menores, que provavelmente foram explicadas em algum ponto do livro, mas dada a forma como este é contado posso não ter dado atenção suficiente a determinados detalhes por não terem sido apresentados numa ordem cronológica que ajudasse à sua compreensão.

Provavelmente pela mesma razão senti que ficaram algumas pontas soltas ao longo da história. Apesar do enredo principal ter sido resolvido, alguns enredos secundários (e com isto estou a referir-me a histórias de algumas personagens ou os seus motivos/razões para as suas acções) ficaram sem explicação. Claro que todas estas questões que ficaram em aberto poderão ser por própria escolha da autora e acho mesmo que muitas vezes estas pontas soltas acabam por enriquecer as histórias a certos níveis. Mas ainda assim, gostava de ter ficado um pouco mais esclarecida quanto a algumas personagens.

Queria ainda falar um pouco do sistema mágico presente na história, que adorei a todos os níveis. É extremamente visual e fiquei com tantas imagens maravilhosas na minha cabeça que fico com imensa vontade de ver uma adaptação para cinema deste livro. Acho que ficaria maravilhoso, sobretudo se fosse em animação. Isto, em conjunto com a época em que a história se desenrola, todo o cenário envolvente e vestuário, contribuíram para que a leitura de O Circo dos Sonhos fosse uma experiência incrível e um desafio à imaginação.

Luzes da Noite

O bar estava aberto.

A música ecoava nas paredes e misturava-se com o fumo do tabaco, que difundia as luzes quentes dos candeeiros.

Ele ouvia o gelo a bater nos copos de vidro e os líquidos coloridos a gorgolejar, as suas gotas reluzentes a embater umas contra as outras e a retroceder nas garrafas.

Ele ouvia e via. Via as pessoas que bebiam e falavam e dançavam no seu lugar, abanando os ombros e os braços ao som da música.

Ele ouvia e via e pensava. Pensava na vida e na dor. Pensava pensamentos que mais ninguém pensava, porque eram dele.

E questionou-se se os outros também o faziam, se também pensavam por trás daquelas palavras soltas e sem nexo e sem nada.

Se pensavam na vida e pensavam na dor. E no espaço. E no corpo. E naquilo de que tudo é feito. Se pensavam na morte.

E no tamanho das coisas.

E no seu próprio tamanho.

Concluiu que sim.

Que pensavam nas discussões vagas e fúteis do dia-a-dia. Que pensavam nas cores e nos cortes de cabelo daquela celebridade e no escândalo da vizinha de baixo que bateu no marido. E pensavam no ritmo das músicas e não nas suas letras. E no próximo episódio da novela da noite.

Ele suspirou e sentiu-se cansado. Como seria mais feliz se não pensasse tanto… Como se sentiria menos insignificante se não pensasse na imensidão do universo…

E por um momento tentou. Tentou não processar tudo à sua volta e tentou ver o mundo através dos olhos dos outros.

Sabia que não ia durar. Com ele, estas tentativas nunca duravam. Mas, nos minutos seguintes, conseguiu ouvir o ritmo da música.

E deixou-se embalar pelas luzes da noite.

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Discussão: Fangirl, de Rainbow Rowell

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  • Título: Fangirl
  • Autora: Rainbow Rowell
  • Publicação (original): 2013

Lido na versão inglesa (Macmillan).

Tenho andado a adiar a discussão deste livro há já algum tempo, simplesmente porque não sei por onde começar! Fangirl foi um livro muito divertido e, pela forma como nos podemos relacionar com estas personagens, situações e conflitos, diria que é uma leitura que vale bastante a pena.

A história segue Cath, a nossa personagem principal, que vai começar a sua vida de universitária. Mas Cath não está nada entusiasmada, e o facto de a sua irmã gémea, Wren, com quem sempre partilhara tudo, querer a sua independência desde duo, não melhora em nada a situação.

Entre o stress e a ansiedade, Cath prefere deixar-se absorver pelo mundo de fanfiction, onde escreve a sua maior história até à data, baseada na famosa série juvenil Simon Snow.

Fangirl segue a jornada de Cath entre o mundo da ficção e o mundo real, na forma como lida com os seus problemas familiares e, ao mesmo tempo, se tenta aproximar das novas pessoas à sua volta.

Este é o segundo livro de Rainbow Rowell que li. O primeiro foi Eleanor & Park, que tem um tom e um ambiente bastante diferentes de Fangirl. Apesar de este também ter a sua porção de drama familiar – interessante na minha opinião, especialmente na forma em que nos apercebemos de como cada um na família o manifesta de forma diferente – senti que Fangirl se foca mais nas descobertas da vida universitária, em ultrapassar inseguranças e estar-se disposto a confiar nos outros.

Neste livro são também abordados temas relacionados com a escrita de ficção, não só a nível de fanfiction mas também na disciplina de Escrita que a Cath tem na universidade, que para mim foi das melhores partes do livro. E estes temas são algo que, na minha opinião, qualquer pessoa que esteja a começar a interessar-se pela escrita deveria gostar de ler.

Este livro é adorável, sobretudo para aqueles que se apaixonam por sagas literárias! A série Simon Snow, que é referida no livro, é como que um paralelo à série Harry Potter, no sentido em que abarcou gerações de fans que ainda hoje adoram os livros e filmes. Ver uma personagem tão devota a algo como Cath é à sua fanfiction de Simon Snow é algo que alguém que entenda essa adoração não pode deixar passar sem um sorriso de orelha a orelha.

De um modo geral gostei muito do livro. A escrita é simples mas cativante pela história, personagens e pelos assuntos abordados.

Se já leram, ou têm interesse em ler este livro, deixem um comentário e dêem-me as vossas opiniões!

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in Fangirl, de Rainbow Rowell, na edição referida na publicação.

Ninfas

A rua sinuosa seguia, sempre a subir. Sentia as pedras da calçada, desalinhadas, nos meus pés, sob a sola das minhas sandálias.

O sol estava quente no meu rosto e braços. Sentia-os a queimar e as minhas pernas a pulsar dentro das minhas calças, enquanto subia. E subia.

Não devia ter trazido estas calças, pensei. Nem devia ter-me comprometido naquele dia quente e ensolarado. Estaria muito melhor à sombra, com uma limonada gelada numa mão, na esplanada de um café. Ou na praia. O sol devia estar tão quente como naquela rua, mas o mar continuaria lá, tão próximo e acessível e fresco quanto possível.

– Estamos quase lá! – Gritava o guia à nossa frente. As gotas de suor escorriam-lhe do rosto entusiasmado até ao pescoço, ensopando-lhe o colete verde fluorescente no local onde lhe assentavam as alças da mochila.

– Há meia hora que ele anda a dizer aquilo… – Murmurei para comigo mesma, esgotada.

– Vá! Não sejas assim, vais ver que vale a pena! – Disse ele. Seguia a meu lado, como sempre. Delirante com a expectativa do desconhecido, como sempre. Aquele olhar e aquele sorriso que diziam que nada o podia parar, que era agora que se ia fazer história.

– Se valer tanto a pena quanto valia o restaurante da semana passada, então estamos desgraçados. – Respondi-lhe, procurando a garrafa de água na minha mala e esperando que ainda estivesse fresca. Não estava. – Sim, porque aquilo foi uma desgraça em todos os sentidos…

– Aquilo foi a tentativa de um bar nórdico feita por alguém cujo único contacto com a mitologia são as BDs do Thor, da Marvel.

– Exacto… Uma desgraça.

A voz do guia soou ao longe. Tínhamos ficado para trás, no grupo.

No cimo da rua erguia-se o pequeno solar. As árvores ensombravam a entrada e uma suave brisa parecia agitar as folhas, lá no alto das suas copas. A promessa de um jardim refrescante e de um lugar onde descansar.

– Vamos lá! – Ele deu um pulo e agarrou-me pela mão, puxando-me rua acima.

– Mas não é preciso correr! – Gritava-lhe eu, mas ele não pareceu ouvir.

Entramos no sumptuoso jardim. Se tivéssemos vindo na Primavera, ia dizendo o guia, poderíamos ter visto todas as cores do solar. Rosas, tulipas, orquídeas, madressilva. A riqueza dos canteiros em flor era do mais belo que essa altura do ano podia oferecer. Agora, no Verão, poderíamos contentar-nos com as laranjeiras e as cerejeiras, cada qualidade no seu respectivo lugar, carregadas de frutos.

– Mas o melhor é não mexer sem autorização. – Disse o guia. – Nunca se sabe se estão boas para consumo.

– Que disparate! – Ouviu-se alguém a dizer. – Já viu a cor daquelas cerejas! Do mais suculento que há, sem dúvida!

O guia riu-se e fez sinal para que o seguíssemos.

Atravessámos o solar. As paredes caiadas cobriam as nossas laterais e lançavam uma sombra fresca sobre os nossos corpos, autenticas barreiras contra o calor penoso do sol.

– Ah, finalmente! – Exclamava o guia, acenando vigorosamente na nossa direcção. – Venham ver, venham ver! Há espaço para todos!

Debruçámo-nos sobre o parapeito. A claridade que incidiu sobre os nossos rostos cintilava também sobre as águas abaixo.

O rio abria-se à nossa frente, quais braços estendidos, pronto a abraçar-nos com a sua frescura salgada. Já salgada.

Senti a brisa, finalmente, agitar-me os cabelos. Olhei o céu. Era o mais azul dos céus. E os farrapos brancos de nuvem salpicavam a tela, aqui e ali, de um branco puro.

– Esta, meus caros, é a vista mais bela que a nossa cidade tem para nos oferecer! – Exclamava o guia, enquanto esbracejava nas suas explicações e referências históricas ao local.

Não o ouvi. Foquei-me na brisa que batia no meu rosto suado, no cheiro do rio e na pedra fria encostada à minha barriga.

– Não é lindo? – Perguntou-me ele. – Podia passar horas aqui…

Assenti.

Ele aproximou-se e encostou o rosto ao meu ouvido.

– Se prestares atenção – sussurrou. – Podes ouvir o canto das ninfas.

Fechei os olhos. E posso jurar que, no murmúrio da água e do ar, ouvi. Ouvi os agudos ecoarem na brisa que me tocava a pele.